Quarta-feira, Setembro 27, 2006

O Xeque Verde
1

Luísa vai sentada à janela, num dos lugares traseiros do autocarro que sobe a avenida em esforço - um rasto evanescente de monóxido de carbono. Ocupa-a uma mensagem ao telemóvel cor de prata, Olá. Vou agora à aula gabinete c o xeque verde, tou nervosa, preciso dum 16! Dp ligo beijos fofa L, passam-lhe despercebidas as acácias floridas, a limpidez aguda do céu, a sem parança nos passeios. O autocarro aproxima-se da paragem. Quando ela se levanta para sair, olhares apreciam-lhe o viço e narizes sentem-lhe o odor fresco dos cabelos lavados.

2

Luísa chega atrasada ao instituto, já passou das dezassete um quarto de hora. Mas não leva verdadeira pressa, os professores fazem pausas entre as aulas de gabinete – é o cigarro e o café, a traça do estômago, as conversas de departamento, o interesse inesgotável dos alunos empenhados. O professor está ao balcão do bar. Luísa cumprimenta-o, o corpo fala-lhe timidamente. O sorriso dele é cortês, Olá Luísa. Dê-me cinco minutos, pede-lhe ele, a chávena do café suspensa a meio caminho entre a boca e o balcão. Ela assente e afasta-se para a porta do pátio, que é uma cortina de luz; senta-se num banco sem espaldar, debaixo dos placares envidraçados onde são afixados os resultados das avaliações, e tira da mochila o maço de cigarros prateado – o aviso anti-tabágico negreja como um obituário de jornal.

3

A luz crua assenta-lhe bem na pele. Já deve ter ido à praia. Ele apaga o cigarro num cinzeiro de vidro e apressa-se para ela jovial, Então, está pronta? Prontíssima, os dentes certos alvorescem-lhe, desviando os seus dos olhos dele, que a fixam castanhos mel e intensos. Entram no gabinete ligeiros e silenciosos, tomam lugar junto à janela. Ele tira uma pasta de dentro da mala de cabedal, abre-a, procura algo na desordem de fotocópias, ofícios, livros. Ela aguarda, hesita-lhe a atenção entre os gestos dele e o brilho do pátio. Os gabinetes do instituto são rectângulos exíguos de dimensões idênticas, contíguos, afastados das salas de aula. O instituto é um edifício quadrado de três pisos, construído em ferro, cimento e vidro, sobre um desnível da colina. No interior, o sobredito pátio, um anfiteatro relvado, chão de calçada, árvores de porte. Dentro do gabinete foram colocadas duas secretárias, uma diante da outra. As paredes têm um forro de livros, dispostos sem ordem aparente em estantes de madeira; há cartazes de colóquios, prateleiras, secretárias e computadores personalizados com objectos pessoais: pequenas esculturas em barro e em pau-preto, fotografias de familiares, de amigos, paisagens, postais, desenhos escolares de uma criança, traços coloridos ainda incertos: o sol verde eriçado, casas tortas de janelinhas amarelas, gente sorrindo em muitas cores acenando, automóveis vermelhos, autocarros alaranjados, nuvens de feltro azul claras. Ele começa a ler as suas anotações ao ensaio – os gestos contidos e suaves das mãos largas e delgadas, os maneios da cabeça e os trejeitos da boca, acompanham o discurso numa coreografia serena: O texto é bastante fluído, as frases estão geralmente bem construídas, as ideias são expostas de uma forma clara e concisa, articulada, embora a Luísa pudesse recorrer de mais exemplos que ilustrassem os argumentos (sublinha). Por fim, demonstra o conhecimento de um vocabulário alargado e aplica-o devidamente. (breve pausa, sorriem) E agora gostaria de discutir consigo, de uma forma mais detida, alguns pontos menos claros que assinalei no seu texto.

4

Luísa defende os seus argumentos, levanta dúvidas, reconhece imprecisões e incoerências. O professor, atento e exigente, confirma gradualmente a nota que pensou atribuir ao ensaio; não só a aluna é inteligente e empenhada, como consegue exprimir estas qualidades; raciocínio escrito e oral pertinentes, e muito bem articulados. A aula está quase a terminar. Luísa, felizcitada, expressa-se vivaz, ri com as anedotas de profissão que ele ilustra com entusiasmo, fumam descontraidamente. Ele tem uma polaróide colada à moldura do écran do computador: os rostos dele e de uma mulher brilham em sorridências num fundo negro. Fotografia de casal. Deve ser a namoradinha. Ou a mulher. Ele interpreta-lhe a mímica de quem está à vontade, de quem adivinha um bom resultado. Os cabelos dela são cor de amêndoa, muito curtos, quase da tonalidade dos olhos. A tee-shirt morre suspensa ao umbigo escuro. Terá ela uns joelhos bonitos?

5

Quando o professor a informa do resultado da avaliação, Luísa sente uma vertigem agradável, tem vontade de saltar da cadeira e enterrar as mãos nos cabelos cor de cinza do professor. Então Luísa, o que vai fazer? Comemorar com os seus amigos? Ele sorri dois sorrisos. Outra vertigem, visceral, segundos: polaróide estragada, branca e aquosa como leite. Ele fita-a sem espanto enquanto ela se recompõe, incapaz de palavras. Levanta-se calmamente, espreita o corredor, tranca a porta e cerra os estores.
Lisboa # Setembro 2006 / Maio 2007