POEMAS DE CAL
[edição revista]
«Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia.»
Ruy Belo
(Emprego e desemprego do poeta)
*
Paisagem
A pincel cresce na tela
vazia uma paisagem onde
com o seu olhar repousado
descansará o apreciador
de passagem.
*
Pelo esplendor das cigarras
a modorra espalha-se fresca
até à margem queimada da sombra.
*
Castelo de Tavira
A osga quieta na pedra da muralha
parece uma sombra a dormir
no fundo de outra sombra.
A osga quieta na pedra da muralha
parece uma sombra a dormir
no fundo de outra sombra.
*
Dente de Leão
Ouriço – do – mar suave pela brisa
rodopiante à espera de poisar.
*
Lua Cheia
Deixaram a lua acesa,
distantemente de prata
ali, fixada e exacta,
ao alcance de uma surpresa
de Méliès, cinematográfica.
*
Retrato
Olha o traço
o traço no papel
o traço do lápis
apaga-o
antes que ele, ágil,
sejas tu.
Algarve, 1999 – Lisboa, Julho de 2002
[Julho de 2008]