Terça-feira, Outubro 14, 2003

POEMAS DE CAL

[edição revista]




«Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia.»


Ruy Belo

(Emprego e desemprego do poeta)

*


Paisagem

A pincel cresce na tela
vazia uma paisagem onde
com o seu olhar repousado
descansará o apreciador
de passagem.


*

Pelo esplendor das cigarras
a modorra espalha-se fresca
até à margem queimada da sombra.
*

Castelo de Tavira

A osga quieta na pedra da muralha
parece uma sombra a dormir
no fundo de outra sombra.
*

Dente de Leão


Ouriço – do – mar suave pela brisa
rodopiante à espera de poisar.
*

Lua Cheia

Deixaram a lua acesa,
distantemente de prata
ali, fixada e exacta,
ao alcance de uma surpresa
de Méliès, cinematográfica.

*

Retrato

Olha o traço
o traço no papel
o traço do lápis
apaga-o
antes que ele, ágil,
sejas tu.

Algarve, 1999 – Lisboa, Julho de 2002

[Julho de 2008]