Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Outro Dicionário de Língua Portuguesa


A


A, para abrir, abraçar, amar, abarcar, aborrecer, abocanhar um naco de vida, A, mas são verdes, esse A que não consegue dizer o que devia, desculpa, A, admirado, A, exclamado, A, declamado, A, de silêncio, de fúria, de enlevo, A, para organizar o alfabeto e ordenar os seres e as coisas, A, pois, outro A malandro, que não quer dizer mais do que diz, fugidio, A, som aberto e redondo, A, letra séria e assertiva, A, muitos Às, riso, espirro, a a a, pequenos às, A, claro, vogal.


Domingo, Junho 01, 2008

Textos do autor publicados

Na Rede

A Rua, poemas «1» e «2»; Metropolitano, poemas «1» e «2»; «Call Center», na revista-blogue Inefável, # 2 (Julho - Dezembro 2007), em http://revistainefavel.weblog.com.pt/
«Onírica Camoniana»; «Fingerbib»; «longo o brilho pelágico do rio ...»; «Os Jardins de Generalife», (poesia) na revista-blogue Inefável, # 1 (Janeiro - Junho 2007), em http://revistainefavel.weblog.com.pt/
«Os Dias»; «Ignorância»; «Recordação»; «Sapos (Revisto)», (tradução de poemas de Philip Larkin), na revista-blogue Inefável, # 1 (Janeiro - Junho 2007), em http://revistainefavel.weblog.com.pt/
Poemas de Cal (2004), e-book, Elefante Editores (http://www.elefante-editores.net/), em Novidades. O download é gratuito.


Em Livro

Poemas «Nazaré» e «Sítio», na antologia Canto de Mar (2005), Colecção Bico da Memória, Biblioteca Municipal da Nazaré.
Cancioneiro do Absurdo (1999, poesia), Lisboa, Edições Tema.


Em Revista

Poemas Alguns dias (1 a 4); A Rua (1 e 3); Metropolitano (1); e Call Center, na revista DiVersos - Poesia e Tradução, nº 15 (2009), pag. 80 ss.


Em Livro e E-Book


A Menina e a Areia (2009, fábula), Bubok (www.bubok.pt/Pedro Silva Sena).

Cancioneiro do Absurdo (edição revista e aumentada) e Monumentos seguido de A Rua Amarela (2009, poesia), Bubok (www.bubok.pt/Pedro Silva Sena).

É possível ler excertos destes livros na livraria da Bubok.

Excerto de A Menina e a Areia:

«Era uma vez uma menina que foi à praia no último dia de aulas com os colegas e as professoras. Lembrem-se meninos e meninas, isto não é só brincadeira, viemos numa visita de estudo… Disse a professora mais velha, enquanto cravavam os chapéus-de-sol e estendiam as toalhas no regaço de uma duna cabeluda. Antes de nos irmos embora, quero que me dêem um exemplo de algo que só poderemos encontrar nas praias, está combinado? Siimm! Exclamaram todos num coro desafinado e galhofeiro de caretas traquinas. E então foi um vê se te avias, a desencantar das mochilas as bolas, as bóias e as raquetes. Mas que reboliço maior se armou então! Chuta daqui, salta dacolá, pula ali, corre para cá, não ficou ninguém aborrecido nem sentado. Até mesmo as professoras, que nunca tinham sido vistas em tais afãs, nem lhes ouvidas tais risadas, se entretiveram a jogar com as raquetes! A certa altura, porém, sem que ninguém se tivesse apercebido, a menina afastou-se a correr, beicito franzido, balde amarelo a baloiçar, decidida a não voltar – e só parou muito depois de ter deixado de os ouvir. O mar atirava-se, despeitado, lá adiante, às rochas de um cabo, embora suspirasse calmo pela praia, a jogar à apanhada com uns passaritos que debicando andavam tic tic tic muito depressa, nas suas pernitas curtas, sempre a fugirem-lhe dos avanços lambões. Já ela catava pedritas, conchas e búzios, quase esquecida do seu choro, quando, debaixo dos lençóis de espuma viu aparecer, de areia molhada, uma carantonha enorme e nariguda que sorriu meiga e quis saber:

Estava eu em um sono sossegadita entre as solhas
Quando senti uma comichão nos meus pés,
Estremunhada perguntei às estrelas-do-mar:
Que cócegas são estas?
Serão os ouriços-do-mar a rir?
Estão dois caranguejos a brigar?
Não, responderam-me elas, Nós também sentimos,
É uma menina a pingar do queixito
Água salgada que nunca provámos...
Ali, na ponta da tua cama, vês?
Vai lá e pergunta-lhe como se chama.

A menina deteve os fios de lágrimas na represa de um sorriso breve e redondo como as bolhas irisadas da escuma, e perguntou delicada, de mãos cheias do seu tesouro, Como é que te chamas?

Eu sou areia e durmo pelas praias
Entre as estrelas-do-mar e as do céu.
Os peixes são meus amigos
E as ondas ensinaram-me todas as línguas,
As das baleias, as dos homens e as dos golfinhos.
Fazes uma ideia do que as focas dizem no seu escarcéu?
Mas que digo eu!? Se nunca tas apresentaram!

Já, já! Exclamou a menina, arrebitada. Fui vê-las a um aquário grande onde elas vivem... São tão giras... E sabia que elas são pequeninas e azuis? A areia ia a sorrir embevecida, mas logo sentiu, súbita e intempestiva, outra comichão, a a a a a ATTCCHHIIMM!!! Espirrou alto e espaventosa, fazendo estremecer o chão e saltar uma lata vazia. A menina riu tanto que as gaivotas olharam cá para baixo e ao seu riso juntaram o delas, O que foi?

Foi aquela lata de refrigerante,
Fez-me cócegas no nariz...
Pelas pulgas-do-mar
Que estão sempre a saltar!
A todo o instante
Tropeço em coisas que cá deixam
– E às vezes é por um triz
Que não me magoo… –,
São paus de gelado, pacotes de sumo
Garrafas, tampas e pontas de cigarro,
Malsinada praia, léguas de desarrumo,
Quando é que te limpam!

A carantonha de areia franziu o sobrolho de conchas escuras e disse à menina, muito séria e serena:

Vou-te mostrar o que acontece
Às praias, às águas e às ruas
Quando alguém se esquece
De que há nelas quem esteja a morar.

Vês ali aqueles pais a dar o almoço
Aos seus meninos traquinas?
Enterraram na areia o saco plástico
Agora mesmo muito mal
– Age assim quem não o sabe trágico:
Pois o saco flutuará pelo oceano,
Invisível como o vidro e forte como o aço,
A caçar a gaivota curiosa ou o tímido peixe-lua...

Pensaram eles no dano tal
Que é deixar na areia ou no chão da rua
Aquilo que é do caixote do lixo?
Será que o saco vai voar
Preso nos remoinhos das esquinas?
Será que o saco vai vogar
De boca aberta ileso pelas correntes?
Quem procura as respostas
Para estes serás?

E se fossem só os sacos plásticos!
Qual quê – já ouço os ais
– É tudo o que não prestar mais!
Ferro-velho, combustível, baterias,
Esgotos, entulho e frascos!
É de pasmar e terrível
Mas isto acontece todos os dias
Eu gostava de saber porquê...

Tristes anémonas coloridas...
E as graciosas medusas translúcidas,
E a filigrana das gorgónias?

É disto que fogem as lagostas em longas marchas?

Nem os paguros vermelhuscos
Nem os pólipos, nem os moluscos
Os podem tomar por casa ou aba
Sem a sua vida arriscar!

A praia é um debrum de ouro em lavores,
O fundo do mar é a jóia de todas as cores.

Eu gostava que te lembrasses,
Pelo menos tu doce menina,
De que aquilo que se perde na água sem destino
Tem sina de assassino...

A areia estava contente agora, já não havia sinal da tristeza que a menina trazia, e os seus olhos atentos eram como dois marezinhos refulgindo ao deitar do sol:

Que sorriso tão bonito
Sorriem as tuas meninas
E os teus dentinhos
São brancas pedras pequeninas.
Diz-me porque choravas tu,
Quem te magoou?
Foram aqueles meninos além?»

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

O Xeque Verde
1

Luísa vai sentada à janela, num dos lugares traseiros do autocarro que sobe a avenida em esforço - um rasto evanescente de monóxido de carbono. Ocupa-a uma mensagem ao telemóvel cor de prata, Olá. Vou agora à aula gabinete c o xeque verde, tou nervosa, preciso dum 16! Dp ligo beijos fofa L, passam-lhe despercebidas as acácias floridas, a limpidez aguda do céu, a sem parança nos passeios. O autocarro aproxima-se da paragem. Quando ela se levanta para sair, olhares apreciam-lhe o viço e narizes sentem-lhe o odor fresco dos cabelos lavados.

2

Luísa chega atrasada ao instituto, já passou das dezassete um quarto de hora. Mas não leva verdadeira pressa, os professores fazem pausas entre as aulas de gabinete – é o cigarro e o café, a traça do estômago, as conversas de departamento, o interesse inesgotável dos alunos empenhados. O professor está ao balcão do bar. Luísa cumprimenta-o, o corpo fala-lhe timidamente. O sorriso dele é cortês, Olá Luísa. Dê-me cinco minutos, pede-lhe ele, a chávena do café suspensa a meio caminho entre a boca e o balcão. Ela assente e afasta-se para a porta do pátio, que é uma cortina de luz; senta-se num banco sem espaldar, debaixo dos placares envidraçados onde são afixados os resultados das avaliações, e tira da mochila o maço de cigarros prateado – o aviso anti-tabágico negreja como um obituário de jornal.

3

A luz crua assenta-lhe bem na pele. Já deve ter ido à praia. Ele apaga o cigarro num cinzeiro de vidro e apressa-se para ela jovial, Então, está pronta? Prontíssima, os dentes certos alvorescem-lhe, desviando os seus dos olhos dele, que a fixam castanhos mel e intensos. Entram no gabinete ligeiros e silenciosos, tomam lugar junto à janela. Ele tira uma pasta de dentro da mala de cabedal, abre-a, procura algo na desordem de fotocópias, ofícios, livros. Ela aguarda, hesita-lhe a atenção entre os gestos dele e o brilho do pátio. Os gabinetes do instituto são rectângulos exíguos de dimensões idênticas, contíguos, afastados das salas de aula. O instituto é um edifício quadrado de três pisos, construído em ferro, cimento e vidro, sobre um desnível da colina. No interior, o sobredito pátio, um anfiteatro relvado, chão de calçada, árvores de porte. Dentro do gabinete foram colocadas duas secretárias, uma diante da outra. As paredes têm um forro de livros, dispostos sem ordem aparente em estantes de madeira; há cartazes de colóquios, prateleiras, secretárias e computadores personalizados com objectos pessoais: pequenas esculturas em barro e em pau-preto, fotografias de familiares, de amigos, paisagens, postais, desenhos escolares de uma criança, traços coloridos ainda incertos: o sol verde eriçado, casas tortas de janelinhas amarelas, gente sorrindo em muitas cores acenando, automóveis vermelhos, autocarros alaranjados, nuvens de feltro azul claras. Ele começa a ler as suas anotações ao ensaio – os gestos contidos e suaves das mãos largas e delgadas, os maneios da cabeça e os trejeitos da boca, acompanham o discurso numa coreografia serena: O texto é bastante fluído, as frases estão geralmente bem construídas, as ideias são expostas de uma forma clara e concisa, articulada, embora a Luísa pudesse recorrer de mais exemplos que ilustrassem os argumentos (sublinha). Por fim, demonstra o conhecimento de um vocabulário alargado e aplica-o devidamente. (breve pausa, sorriem) E agora gostaria de discutir consigo, de uma forma mais detida, alguns pontos menos claros que assinalei no seu texto.

4

Luísa defende os seus argumentos, levanta dúvidas, reconhece imprecisões e incoerências. O professor, atento e exigente, confirma gradualmente a nota que pensou atribuir ao ensaio; não só a aluna é inteligente e empenhada, como consegue exprimir estas qualidades; raciocínio escrito e oral pertinentes, e muito bem articulados. A aula está quase a terminar. Luísa, felizcitada, expressa-se vivaz, ri com as anedotas de profissão que ele ilustra com entusiasmo, fumam descontraidamente. Ele tem uma polaróide colada à moldura do écran do computador: os rostos dele e de uma mulher brilham em sorridências num fundo negro. Fotografia de casal. Deve ser a namoradinha. Ou a mulher. Ele interpreta-lhe a mímica de quem está à vontade, de quem adivinha um bom resultado. Os cabelos dela são cor de amêndoa, muito curtos, quase da tonalidade dos olhos. A tee-shirt morre suspensa ao umbigo escuro. Terá ela uns joelhos bonitos?

5

Quando o professor a informa do resultado da avaliação, Luísa sente uma vertigem agradável, tem vontade de saltar da cadeira e enterrar as mãos nos cabelos cor de cinza do professor. Então Luísa, o que vai fazer? Comemorar com os seus amigos? Ele sorri dois sorrisos. Outra vertigem, visceral, segundos: polaróide estragada, branca e aquosa como leite. Ele fita-a sem espanto enquanto ela se recompõe, incapaz de palavras. Levanta-se calmamente, espreita o corredor, tranca a porta e cerra os estores.
Lisboa # Setembro 2006 / Maio 2007

Terça-feira, Outubro 14, 2003

POEMAS DE CAL

[edição revista]




«Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia.»


Ruy Belo

(Emprego e desemprego do poeta)

*


Paisagem

A pincel cresce na tela
vazia uma paisagem onde
com o seu olhar repousado
descansará o apreciador
de passagem.


*

Pelo esplendor das cigarras
a modorra espalha-se fresca
até à margem queimada da sombra.
*

Castelo de Tavira

A osga quieta na pedra da muralha
parece uma sombra a dormir
no fundo de outra sombra.
*

Dente de Leão


Ouriço – do – mar suave pela brisa
rodopiante à espera de poisar.
*

Lua Cheia

Deixaram a lua acesa,
distantemente de prata
ali, fixada e exacta,
ao alcance de uma surpresa
de Méliès, cinematográfica.

*

Retrato

Olha o traço
o traço no papel
o traço do lápis
apaga-o
antes que ele, ágil,
sejas tu.

Algarve, 1999 – Lisboa, Julho de 2002

[Julho de 2008]

Quinta-feira, Agosto 14, 2003

São idênticos o título deste blogue e o de um romance de Teolinda Gersão. A origem do primeiro não é o segundo, mas a expressão «l'arbre des mots» - conferir alguma etnografia argelina -, coincidência. A «árvore das palavras» é uma metáfora possível para blogues e outros géneros electrónicos.

Quinta-feira, Julho 10, 2003

A Árvore das Palavras é um blogue de autor onde se publica poesia, ficção e não-ficção. Pretende-se com este espaço partilhar textos com o público electrónico de língua portuguesa.

Pedro Silva Sena
*
Sobre o autor deste blogue:

Nasceu em Lisboa (1975) e está a profissionalizar-se na área da Antropologia. É editor da revista-blogue de poesia Inefável (ver em Ligações)